Vodka com Limão

Seria Sereia?

Setembro 20, 2009 · Deixe um comentário

- Uma sereia, Zé!

Disse o amigo do Zé.

- Deve ser bem bonita pra você falar assim.

Disse o Zé.

- Não, Zé. Uma sereia mesmo. Vem ver.

A sereia estava deitada num banco da praça na frente da igrejinha. Um menininho com uma bola debaixo do braço a examinava:

- Será que ela morreu?

- Sua mãe tava te procurando, menino. Ela disse que vai te encher de chineladas.

O menino mostra a língua pra mulher que o avisou sobre as chineladas e sai correndo. Uma menininha com uma fralda na boca chega perto da sereia:

- Que burro! O peito dela está se mexendo.

- Não fica perto, menina, isso só pode ser serviço do coisa ruim.

Disse uma beata.

- Mas como uma coisa linda dessas pode ser coisa do coisa ruim?

Disse o amigo do Zé.

- Quanta coisa! Babá, vem me balançar?

A menininha puxou a mulher das chineladas na direção do parquinho da praça.

-Alguém chamou o padre? – A beata.

-Pra quê padre? – O Zé.

- Ué? Pra benzer. – O dono da vendinha da esquina.

- Benzer o que? – O coroinha.

- Tem que se fazer tudo sozinha mesmo, viu? Vou lá chamar o padre. – A beata.

- O que é isso?? – O coroinha de olhos arregalados.

- Essas crianças de hoje em dia. Nunca viu uma sereia é? – Um velho de bengala

- Elas não gostam mais de ler. Oh! Zé, tua mulher já deve estar te esperando com o rolo de macarrão. – O amigo do Zé.

- O Zé já foi. – Respondeu um hippie.

- Nem me esperou, desgraçado… tchau pra vocês.

- Isso é uma sereia? Ela tá dormindo? Ela tá morta? Como ela chegou aqui? Sereias sabem andar? – O coroinha usando sua bombinha de asma.

- Calma meu filho. – O padre colocando as mãos no ombro do coroinha. – Vai pra casa. Essa é a sereia? Mas ela é tão nova.

- E bonita. – Um rapaz de tatuagens e piercing na língua.

- Mas olha as escamas dela. Tão ressecadas. – Comentou a mulher do batom vermelho.

- Estão mesmo. – Concordou a garota que carregava livros.

- Acho que ela não é sereia de verdade. Olha só o rabo dela. – O rapaz das tatuagens.

Todos ali se curvaram para analisar de perto.

- Pode ser. Mas se for uma sereia, temos que levá-la para a água. – O padre.

- Tem que ser salgada, como o mar. Já vi muitas morrerem por água trocada. – O velho da bengala.

- Mas e a Iara? – A do batom vermelho.

- Que é que tem? – Indagou o padre.

- Não é de rio?

- Cachoeira. – Completou o hippie. – O padre não tem que tocar o sino? Quatro horas já.

- Como você sabe, meu filho?

- A terra fala comigo. E estou com fome já. Sempre fico com fome às quatro horas.

- Venha que eu te arranjo umas frutas.

- Mas o padre não vai benzer? – O velho da bengala.

O padre fez o sinal da cruz sobre a sereia e saiu com o hippie.

- Será que a gente acorda ela? Droga! Sempre atrasada para a aula… – A menina dos livros.

- Vai chover. – O velho da bengala.

- Na serra já começou. Meu primo ligou avisando que vai cair um toró. – A do batom vermelho.

- Não tiraram ela daí ainda? Não vão chamar a polícia ou um guincho? – A babá com a menininha no colo.

- Guincho? Ela não é um carro ou uma baleia encalhada pra guinchar. – O das tatuagens.

- Pode não ser baleia, mas que está meio encalhada… – A do batom. – Vou é antes da chuva.

- Você quer dizer ia. Já senti um pingo na cabeça. – disse a babá. – Vamos embora Lurdinha. Sua mãe te espera.

- O céu está bem preto. Vem vô. – uma garota de chapéu para o velho de bengala. – A vó tá de esperando pra tomar café.

O das tatuagens ficou a velar a sereia sozinho, até que as primeiras gotas de chuva começaram a cair.

a. Pandora

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