- Uma sereia, Zé!
Disse o amigo do Zé.
- Deve ser bem bonita pra você falar assim.
Disse o Zé.
- Não, Zé. Uma sereia mesmo. Vem ver.
A sereia estava deitada num banco da praça na frente da igrejinha. Um menininho com uma bola debaixo do braço a examinava:
- Será que ela morreu?
- Sua mãe tava te procurando, menino. Ela disse que vai te encher de chineladas.
O menino mostra a língua pra mulher que o avisou sobre as chineladas e sai correndo. Uma menininha com uma fralda na boca chega perto da sereia:
- Que burro! O peito dela está se mexendo.
- Não fica perto, menina, isso só pode ser serviço do coisa ruim.
Disse uma beata.
- Mas como uma coisa linda dessas pode ser coisa do coisa ruim?
Disse o amigo do Zé.
- Quanta coisa! Babá, vem me balançar?
A menininha puxou a mulher das chineladas na direção do parquinho da praça.
-Alguém chamou o padre? – A beata.
-Pra quê padre? – O Zé.
- Ué? Pra benzer. – O dono da vendinha da esquina.
- Benzer o que? – O coroinha.
- Tem que se fazer tudo sozinha mesmo, viu? Vou lá chamar o padre. – A beata.
- O que é isso?? – O coroinha de olhos arregalados.
- Essas crianças de hoje em dia. Nunca viu uma sereia é? – Um velho de bengala
- Elas não gostam mais de ler. Oh! Zé, tua mulher já deve estar te esperando com o rolo de macarrão. – O amigo do Zé.
- O Zé já foi. – Respondeu um hippie.
- Nem me esperou, desgraçado… tchau pra vocês.
- Isso é uma sereia? Ela tá dormindo? Ela tá morta? Como ela chegou aqui? Sereias sabem andar? – O coroinha usando sua bombinha de asma.
- Calma meu filho. – O padre colocando as mãos no ombro do coroinha. – Vai pra casa. Essa é a sereia? Mas ela é tão nova.
- E bonita. – Um rapaz de tatuagens e piercing na língua.
- Mas olha as escamas dela. Tão ressecadas. – Comentou a mulher do batom vermelho.
- Estão mesmo. – Concordou a garota que carregava livros.
- Acho que ela não é sereia de verdade. Olha só o rabo dela. – O rapaz das tatuagens.
Todos ali se curvaram para analisar de perto.
- Pode ser. Mas se for uma sereia, temos que levá-la para a água. – O padre.
- Tem que ser salgada, como o mar. Já vi muitas morrerem por água trocada. – O velho da bengala.
- Mas e a Iara? – A do batom vermelho.
- Que é que tem? – Indagou o padre.
- Não é de rio?
- Cachoeira. – Completou o hippie. – O padre não tem que tocar o sino? Quatro horas já.
- Como você sabe, meu filho?
- A terra fala comigo. E estou com fome já. Sempre fico com fome às quatro horas.
- Venha que eu te arranjo umas frutas.
- Mas o padre não vai benzer? – O velho da bengala.
O padre fez o sinal da cruz sobre a sereia e saiu com o hippie.
- Será que a gente acorda ela? Droga! Sempre atrasada para a aula… – A menina dos livros.
- Vai chover. – O velho da bengala.
- Na serra já começou. Meu primo ligou avisando que vai cair um toró. – A do batom vermelho.
- Não tiraram ela daí ainda? Não vão chamar a polícia ou um guincho? – A babá com a menininha no colo.
- Guincho? Ela não é um carro ou uma baleia encalhada pra guinchar. – O das tatuagens.
- Pode não ser baleia, mas que está meio encalhada… – A do batom. – Vou é antes da chuva.
- Você quer dizer ia. Já senti um pingo na cabeça. – disse a babá. – Vamos embora Lurdinha. Sua mãe te espera.
- O céu está bem preto. Vem vô. – uma garota de chapéu para o velho de bengala. – A vó tá de esperando pra tomar café.
O das tatuagens ficou a velar a sereia sozinho, até que as primeiras gotas de chuva começaram a cair.
a. Pandora
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